domingo, 19 de dezembro de 2010

ENTORPECE E NÃO TECE




ENTORPECE E NÃO TECE
Ivy Gomide


Zonza,
aspiro sol encardido
arrancado da fumegante cabeça
Ocaso de linhas
entorpecem e
não tecem.
Torto e vulnerável
enigma
queima lava acesa


*

sábado, 11 de dezembro de 2010

SÉRIE NEUROSES.....ZINHAS




SÉRIE – NEUROSES..ZINHAS

1 - EU PRECISO DORMIR!



EU- Você sabia que eu tenho umas neuroseszinhas?


- Como ..zinhas..?


EU
- Sim afinal não são tão grandes, quer dizer eu nunca fiquei medindo.
Bem, também não são minúsculas.


- Putz.. você já é boa pra disfarçar heinn?


EU - Não estou disfarçando, eu estou falando de mim, vê se entende.


- Tá linda, então fala....


EU - Bem, na verdade eu tenho uma quantidade razoável de neuroses, estive no analista, mas não me curei de todo, e foram mais de 10 anos...


- Pôxa, você deve ser bem complicadinha...


EU
- Sem essa, viu? Você deve ter um monte! Mas eu to falando de mim e isto é bom, porque é se abrindo, se expondo que a gente não se afoga!


- Afoga? Tá louca? Vai logo explicando porque daqui a pouco eu perco a paciência...


EU - Que saco cara! Você é um chato de galocha! Sabe o que é? Eu sou insone...MESSSMMOOOOOOO! Pra dormir um pouco é preciso ‘um longo processo.’


- Processo? Pra você dormir tem que ser processada em quê?


EU - Tá louco? Falo de procedimento.


- Ahnnn...


EU - Primeiro eu preciso estar bem calma, a casa tem que estar razoavelmente silenciosa, pego um refrigerante, suco, ou yogurte ligth e ligo o DVD porque se for a luz do computador eu acordooooo.....
Depois eu escolho um filme que eu já tenha visto umas vezes e não pode ser de ação, terror, suspense ou de guerra; é melhor ser uma comédia romântica ou algo ligth.. Daí eu já deixo a cama pronta, apago as luzes e fico no escuro da sala com o “suco” e tomo meio comprimido de 6 mg de bromazepan, a outra metade fica na mesinha de cabeceira do quarto.


- Credo! Que novela !!!!!


EU - Bem, fico vendo o filme que já sei quase decorado, mas não pense que saio bocejando...


- Eu roncaria com uma situação dessas...


EU - mas sou insone menino!


- Táaaaaaaaaa.. e daí?


EU
– Bem, fico olhando a TV no escuro e no silêncio e de vez em quando um micro bocejo acontece... no escuro quase total, a luz da TV ajuda.


- Cara! Parece filme de terror e não comédia romântica...


EU - Me preocupo em ir ao banheiro antes porque quando eu começar a ficar meio mole não preciso acender as luzes.
Então aquele filme repetido me acalma e a escuridão me relaxa....


- E você ronca na sala mesmo!


EU - Nada disso! Eu vou para o quarto e tomo a outra metade já deitada, tento não pensar em nada para não acordar a micro sensação sonolenta.


- S e n s a ç ã o ??? Hummmmmm... Aããããã.. zzzzzzzzzzzzz........


EU
- fecho os olhos e tento procurar meu sono...


- Aããããã.......-uuuuuããããããããããã~.......zzzzzzzzzz


EU
- Não durmo logo e se um carro manobrar na porta do prédio( moro num apê de frente), o cretino me impede de dormir.


- zzzzzzzzzzzzzzZZZZZZZZZZZZZZ...... huummmmmmmmmmauuuuuuuuuuuu...........ZZZZZZZ


EU - Ta ouVINDOOOOO ? ?



-ZZZZZZZZZZZZZZZ.........zzzzzzzzzzzzzzz........ZZZZZZZZZ....




EU - Para de roncar!!!!

Eu preciso dormirrrrrrrrrr !!!!!







Ivy Gomide

terça-feira, 12 de outubro de 2010

EU SEI QUE VOU TE AMAR




EU SEI QUE VOU TE AMAR

FILME DE JABOR


Existe algo de impossibilidade nas relações; existe algo de fatídico na convivência. As mesmas pulsões que alimentam a vida planejam a morte. Afeto X Sexo duelam.
No filme, há um duelo de quase duas horas abordando este tema complexo. A menina estava vestida de sonhos, de paixão e fantasias
(sobretudo fantasias..). Esqueceram de lhe dizer o quanto é difícil a convivência. O rapaz estava possuído pela libido, o tesão rodopiava no ar.
Não me preocupa o que Jabor quis expressar quando realizou este filme em 1986, importa como o percebemos. Fato é que neste duelo conjugal cada um reclama por seus direitos, sonhos e desejos o que torna em muitos momentos o filme esgotante, até porque vivemos isto. É o nosso dia a dia de cobranças diárias. Tal como na vida, X quer ( ou queria..) de Y algo que não aconteceu. Eles voltam ao “Set”( Lar), possuídos de esperança.
‘Sem dúvida alguma, a esperança é a última que morre !’
No duelo ela reclama da falta de espaço para existir, das interferências familiares, da formação que a avó lhe impôs, de tudo que queria e não aconteceu. Ele reclama das suas angustias, do que imaginara existir nela, reclama inclusive do próprio desejo que rege sua vida. “..É preciso deixar de ser homem, para tornar –se homem...” Sim, não resta a menor dúvida que é preciso deixar a vestimenta arcaica imposta pela sociedade, onde a mulher é apenas a Amélia que está ali para lhe dar “o impossível”, apenas porque nem isto(“o impossível..”) o completará. Nada preenche àqueles corações desejosos.
Isto me remete às crianças, como observadora da vida, sei que toda criança por mais linda que seja( falo das crianças de tenra idade), vampirizam as mães. As crianças, querem, querem e querem. E o que querem? O prazer permanente; e este meus queridos, dura instantes. Os prazeres, a felicidade é a soma de momentos mesmo numa relação a dois. Antes de dizer: “Eu Sei Que Vou Te Amar”, existe a questão: EU ME AMO.
Quem não se ama, jamais conseguirá se relacionar satisfatoriamente com o outro; porque é a partir da relação consigo mesmo que você poderá construir uma relação a dois. Ali, naquele casal de Jabor, cada um entra querendo do outro aquilo que eles mesmos não possuem: Amor a si próprios, consciência de quem são. Algo muito difícil de construir. Dar espaço para que o outro construa sua própria existência é mais um capítulo. Confesso que eu mesma tento compreender que o outro é o outro e não uma parcela de mim.
Vivemos a incompletude eterna, somos solitários na vida, nascemos sozinhos e vamos morrer eternamente solitários. Ai que inveja...rs de Simone de Beauvoir e Sartre. Terão eles encontrado a fórmula? O fato é que precisamos amar um pouco menos até para poder educar. ‘Amor demais atrapalha o processo de crescimento, tal como amor de menos...’ É preciso saber dosar. Freud dizia que “Educar é saber frustrar”, sábio, não é mesmo? Fato é que vivemos a incompletude para podermos conviver com o outro. Tenho a certeza absoluta que nascemos incompletos...


Ivy Gomide


Ficha Técnica
Título original: Eu Sei que Vou te Amar
Gênero: Drama
Duração: 104 min.
Lançamento (Brasil): 1986
Distribuição: Embrafilme
Direção: Arnaldo Jabor
Roteiro: Arnaldo Jabor
Produção: Helio Paula Ferraz e Arnaldo Jabor
Fotografia: Lauro Escorel Filho
Figurino: Glória Kalil
Edição: Mair Tavares


*

sábado, 4 de setembro de 2010

NOTAS de SINFONIA inter CALADA



NOTAS de SINFONIA inter CALADA
Ivy Gomide




pétala por pétala
na boca do algodão doce
vozes algozes
emudecem gritos
de tiro-teio
eu tiro-teimo
em ti
apenas porque
o perfume
suspira
e aspira
na seqüencia da
sinfonia
interCALADA
notas orvalhadas
re escrevem
brincos
na lua.




* * * * *

terça-feira, 31 de agosto de 2010

FILTROS &FILETES IN TOCADOS





FILTROS &FILETES IN TOCADOS



No contra pelo de meus braços
passa-me teus dedos
atrasa o tempo
redefine as noites
invade-me

no pulsar dos delírios
chega devagar
perturba
abre portas
mesmo que trancadas

cola tua boca
desce a nuca
arranha desejos e
acende paisagens adormecidas
filtro desta manhã
tão pálida
tão frágil
tão complexa

acorda o implacável sono
amanhece o barco vazio
navega


Ivy Gomide



* * * *

domingo, 30 de maio de 2010

Sex, Lies and Videotape



FILME SEXO MENTIRAS E VIDEOTAPES

Steven Soderbergh tinha somente 26 anos quando fez este filme, curiosamente os atores foram brilhantes. Andie Macdowell na época era uma atriz de comédias românticas, Laura San Giacomo, Peter Gallager e James Spader apenas iniciavam no cinema. Entretanto todas as atuações foram primorosas. O filme é simples não tem nada de extremamente grandioso na medida em que trata de relações conjugais, as neuroses de cada um de seus personagens e dos efeitos deste conjunto.
“..Que seja infinito enquanto dure”, esta frase é de nosso poeta Vinicius de Morais.
Acredito na família e no casamento e penso que do casamento que deu certo restam muitas memórias e uma grande amizade.

Ann está casada a pouco tempo e aparentemente satisfeita com seu cotidiano repetitivo.
O marido de Ann esta insatisfeito no seu dia a dia e compensa suas frustrações tendo um caso extraconjugal com a irmã de sua mulher. A irmã de Ann ( Cintya), sente enorme inveja de Ann porque considera sua irmã mais bela ( realmente), muito mais interessante e bem realizada. Graham um amigo dos tempos colegiais de John, viveu algum trauma, saiu da cidade e está retornando para entender o que realmente aconteceu com ele.
Graham tornou-se impotente por pura neurose e se satisfaz sexualmente quando está solitário, para tanto necessita do estímulo visual das mulheres que ele entrevista. Estas mulheres falam de suas experiências sexuais sejam quais forem.
Penso que não vale contar o filme em si, mas sim entender o que acontece. O que vemos então?
Uma jovem esposa fingindo ser feliz, uma irmã invejosa e desvalorizada, um marido frustrado que se satisfaz sexualmente com a irmã pseudo liberada e o visitante que interfere em todas estas vidas. Ele chega e dessarruma a aparente felicidade que reside em tanta frustração.
Grahan funciona como divisor de águas, quem sabe como espelho? Fato é que ele faz com que as pessoas parem pra pensar. Daqueles videotapes que servem como objeto de mastrurbação, Ann faz criticas:"... O que vc fez de sua vida em tantos anos? Por quê se esconde atrás de uma câmera? O que vc espera que aconteça? O que pretende com isto, vai resolver suas questões afetivas ?..."
Ann, machucada por ter descoberto que vivia de aprências questiona o homem que mexe com seus sentidos.
O filme mexe com questões relacionadas ao amor, ao sentido da vida e à satisfação. O filme aparentemente simples traz a tona a questão do desejo, da afetividade e do prazer. Isto aparece da maneira mais simples possível. Este filme é sobre questionamentos. Acredito que o trabalho de Soderbergh funcione como espelho para cada um e para nós expectadores da trama.

domingo, 25 de abril de 2010

ENXOTANDO FANTASMAS



ENXOTANDO FANTASMAS



- Deus! Tô apelando...
Hahaha, cabelos brancos, rugas, marcas disso e daquilo e por favor, sem essa de dizer :
“As marcas da idade, significam tudo que você viveu”
Me poupe!
Não as acho bonitas e ponto; sei que existem porque estão ali na minha frente e o espelho não mente.


- Me conta como funciona essa coisa de “apelar” e da relação com o espelho. Como você especificamente resolve a equação?


- Não resolvo, estou tentando entender....
Cara, é tudo muito difícil porque por dentro eu sou jovem demais e então quando dou de cara com o espelho, o susto é inevitável.


- kkkkkkk.... a questão do inevitável é seríssima.


- Muito, informo que não sou contra qualquer plástica, acontece que acho um perigo ficar com cara de borracha e percebi que depois de certa idade não tem bisturi que resolva.
Existem uns creminhos, mas não acredito neles, fato é que toda mulher não gosta de ficar velha.
Aviso: ‘Não é uma questão social’, em todas as classes envelhecer significa desprazer.
Existem pessoas que vem com lero lero dizendo que faz parte da natureza, que envelhecer amadurece que temos que saber envelhecer.
Ora, tudo parece muito lindo e romântico, mas na verdade ficar velho é um desastre.
Contudo adquirimos fórmulas.


- Gostei desta parte, conta sobre as fórmulas...


- A melhor é fingir para você mesma que o visual piorou, mas em compensação a cabeça está tinindo.
E é verdade, parece que ao envelhecer adquirimos certa clareza,( por que não percebi isto antes? )
Contudo se você souber usar os tais neurônios poderá viver satisfatóriamente.
Eu estou querendo dizer que as fórmulas estão relacionadas a saber usar melhor o seu tempo, sua criatividade, manter-se atualizado. Eu por exemplo aprendo tudo rapidamente.
Aprendi também a não ter vergonha de ser eu mesma, faço o que quero e não me preocupo se estou pagando algum mico. Não gostou? O problema é seu....
Também sinto-me privilegiada porque sempre tive muita facilidade de inventar, criar. Sou criativa no meu dia a dia e também sou seletiva portanto só me relaciono se eu achar que vale a pena.
Quando jovem, eu chegava a ser idiota, mas eu não pretendo entrar numa crise de nostalgia, hoje quero usar bem o que me resta, porque é isto mesmo: Depois de certa idade o que te resta é a raspa do tacho e esta tem que ser muito boa.


- Gostei da raspa, dizem que as raspas são o melhor do doce.


- Sim, em relação a doces é tudo verdade. Em relação à idade temos alguns aspectos e é por isto que dei o nome de fórmulas.
A idade tem limitações, ex: a vista não é boa, você perde um tanto de pique, se cansa com mais facilidade, engorda mesmo que não coma, tem excesso de compromisso e em muitos casos adoece mais, isto é, fica vulnerável.
Uma das fórmulas é se manter atento, atenção em todos os casos é fundamental.
Portanto eu não vou ao médico porque estou doente, eu vou ao médico, para não ficar doente e com isto eu ganho tempo e felicidade porque se a velhice já é ruim, imagine ter estes dois prejuízos? Sepultura, na certa.
Outro aspecto da fórmula é estar sempre atualizado porque se a solidão é inevitável, a máquina internética pelo menos te dá meia relação. Meia porque em alguns casos você pode vir a conhecer ‘alguns amigos’, e com os outros você poderá manter uma relação virtual. Quando você ficar esgotada, basta desligar a máquina...clic
(o botão é sensacional).



- Acontece que o que você está dizendo é universal (sem ser igreja..rs). A solidão acomete jovens e velhos, talvez acometa até crianças...


- Sem dúvida alguma. A globalização comeu nossas vidas, nos jogou na arena e nunca sabemos se as feras estão famintas ou não.
A grande vantagem da juventude está relacionada ao tempo.
Quer ver? Eu estive a pouco na Europa e tenho certa urgência de voltar lá, por quê? Somente porque estou numa situação em que não posso dizer: Um dia eu volto lá! Ora, um dia pode significar muito tempo. Se eu for esperar o tal tempo, volto aos oitenta.....hahaha.
Me diz, sei lá como estarei aos oitenta? De repente ainda estou bem, mas isto é ser otimista demais porque se hoje eu me canso mais, se enxergo menos, se dói aqui e ali, se a minha densitometria óssea diz que eu tenho osteopenia , lá pelos oitenta ela já deve ser uma osteoporose, você me entende? Pois é, ter uma certa idade está intimamente ligado à urgências.


- Entendi tudo, e acho muito legal o fato de você se preocupar em usar bem seu presente. Acho incrível você manter este humor, mas penso que você relatou questões que estão intrinsecamente ligadas à existência humana.
Enxota os fantasmas mesmo porque só assim temos condições de usar nossa existência de maneira satisfatória.
Isto é quase como comer strudel com amêndoas em calda, com o direito de poder escolher se o comemos num Castelo na Normandia ou se num apê em Copacabana, tudo vai depender da escolha de cada um..



Ivy Gomide



*

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TIREI ESTA FOTO HOJE, É VERDADE!



-Tirei esta foto hoje!
-É mesmo? Com que idade?
-Você acha que eu estou mal?
- Está ótima! Era isto que você queria ouvir, não é?
- E qual a mulher que não quer ouvir isto? Todas, meu querido....
- Pode começar a contar os truques, a ida ao photoshop, uma plástica virtual... conta logo porque eu te conheço...
- Espera, não estraga os prazeres e nem detona, estou ao natural.... você não está vendo? Eu mesma me fotografei porque quando chegamos numa certa idade penso que não podemos mais esconder. Sou eu mesma sem disfarces.
- Sem disfarces, nenhum?
- Quase 100% ao natural...... quer dizer eu dei uma arrumadinha no cabelo, mas não foi virtual, foi no meu espelho mesmo....
-Ahnnn, sei..
- Não passei nada no rosto, isto quer dizer que não tem maquiagem, só estava com um creme e nem gostei porque deu brilho. Também vou logo avisando que nunca fiz plástica, nenhuma! Eu apenas pinto o cabelo, mais qual mulher não pinta?
Quer dizer, eu fiz a sobrancelha definitiva, mas juro que não fiz mais nada.
- O que é isto de sobrancelha definitiva, eu pensei que a gente nascia com uma....
- kkkkkkkk, espera que eu explico: seguinte, depois de certa idade aparece uns fios brancos na sobrancelha e a gente começa a tirar e ela vai afinando muito, daí eu fiz uma espécie de tatoo na sobrancelha.
- Que lugar esquisito pra fazer tatoo! Fez tatoo de quê??
- Ora bolas, eu fiz uma sobrancelha em cima da sobrancelha, vê se entende! Fora isto tudo é ao natural, tal como sou..
- Ah sei, você está dizendo que não tem nem meio retoque, que se eu for até aí te ver eu dou de encontro com esta aí da foto?
- É mais ou menos isto sim...
-Como mais ou menos? Você vai abrir a porta pela metade?
Aparece a da foto e depois vem outra?
Pôxa, explica direito, eu quero saber se é você ou não é!
- Sou eu mesma, quase, quase.... quero dizer que eu fui no photoshop e dei uma iluminada, mas sou eu!
- Começou a trapacear, conta logo!
- Calmaaaaa eu só dei uma iluminada, mas o cabelo é meu, as rugas são minhas, o sorriso é meu... Tudo meu!
Eu só posei...... virei pro meu lado melhor.... escolhi uma foto entre umas dez que tirei.
Ah... eu também fico melhor de lado.... Sabe como é, a gente dá um jeitinho ...rs..
-To entendendo; vestiu uma roupa de festa, calculou a iluminação, riu sem naturalidade ( posou..), penteou o cabelo, passou um creme, desarrumou, pintou o cabelo antes e repetiu umas dez vezes pra você mesma: - Diz que eu estou bem, diz? (Para a máquina!)
Sua manipuladora....
- Você quer me fazer chorar seu cretino? Olha, eu nem devia ter te contado nada.
Sou eu sim, eu só me arrumei um pouquinho pra foto e aparece logo um estraga prazeres.
Eu estou bem viu? Eu estou melhor do que muita mulher mais nova. Não estou negando que tenho rugas e não tirei nenhuma com apagador virtual, deixei tudo porque eu queria tirar uma foto de verdade. Eu to vendo o quanto você é chato, só porque é homem.... Todo homem é assim...
Só porque vocês podem ter cabelo branco que dá um charme, podem ser barrigudos porque não fica feio, podem ser carecas porque dizem que tem mulher que gosta, podem ter rugas porque ruga em homem é enfeite.
Poxa, olha aqui eu não gosto de careca, tá OK? E acho horrível homem com aquele barrigão!
- hahahahaha... não tenho barriga, não sou careca e nem tenho rugas. Ferrou!
- Detesto você, quer acabar com a minha felicidade, por que vocês são assim? Olha não to ligando, sou mais eu porque cheguei numa certa idade e ainda to inteira.
-Qual idade?
-É ruim que vou te dizer heinn..... tá querendo saber demais, viu? Some daqui agora.

Ivy Gomide

quinta-feira, 15 de abril de 2010

MORTE EM VENEZA - FILME DE L. VISCONTI



Morte em Veneza

Só se pode alcançar a beleza através dos sentidos. Existe algo de maligno em nossos sentidos.
- ‘Não posso aceitar algo demoníaco dentro da arte.’
Esta frase traduz um pensamento de Gustav Aschenbach.
Segundo a wikipédia, "Morte em Veneza apresenta uma escrita complexa e profunda, onde cada parágrafo pode ter diversas leituras".
O aparente enredo nos parece inexistente porque trata da história de um homem de meia-idade que viaja até Veneza e apaixona-se platonicamente por um belo rapaz de 13 anos. Contudo este envolvimento ao mesmo tempo que perturba, provoca um fascínio e desejo irresistíveis para no final este homem morrer sem sequer ter trocado uma palavra com ele.
Gustav é um compositor rígido em suas regras, está doente e foi a Veneza para descansar e relaxar; tratamento indicado para seu coração doente.
Tádzio é um menino de 13 anos que possuí uma beleza fora do comum. É saudável, alegre e vive uma vida de garoto sem preocupações ou regras.
O encontro dos dois acontece na paradisíaca Veneza que naquele momento atravessa um período vulnerável com a possibilidade de uma epidemia de cólera.
O filme nos proporciona pouco mais de duas horas sobre a questão do desejo e do amor mesmo que platônico.
É o encontro do artista com a beleza, tanto da cidade quanto da música e do menino em sua perfeição.
Veneza é o cenário onde se passa a angustiante e dramática história; uma cidade flutuante entre pontes e vielas labirínticas. Uma cidade romântica que possibilita encontros e paixões, uma cidade enigmática porque parece guardar mistérios indecifráveis. Uma cidade onde Aschenbach perde o controle de suas rígidas regras porque penetra na intimidade da beleza em estado puro.
Aparentemente a história aborda a homossexualidade, entretanto esta questão logo fica em segundo plano porque a paixão que toma conta de Aschenbach permanece no âmbito da idealização, em nenhum momento ela é tem características sexuais. É uma paixão extraída do olhar. Tal como acontece quando estamos em Veneza. O olhar revela.
A atração não ultrapassa a necessidade de “ver e sentir” o belo. Este belo é o ideal perseguido de forma irresistível como beleza eterna e é essa beleza que transtorna o compositor que sempre a buscou para si .
Aschenbach encontra a arte (beleza), na forma física ( humana).
Esta sempre foi sua meta como compositor, meta que ele perseguiu por toda vida; o drama consiste no fato de que a beleza não surge de dentro dele, ele não chegou a ela de dentro para fora, ela chegou a ele de fora para dentro na figura perfeita do jovem Tádzio. Portanto ele não é criador, mas somente espectador.
Isto faz com que a beleza provoque angustia.
Li em algum lugar da internet que ‘a imagem de Tadzio seria a captura da beleza que a arte se encarrega de eternizar.’ Achei a frase belíssima, talvez tão bela quanto o próprio Tadzio ou minha linda Venezia.
Acompanha esta trajetória a 5ª Sinfonia de Mahler fazendo com que o filme se transforme na própria beleza desmembrada.
Fico pensando neste triangulo sutil: A 5ª sinfonia trafega os labirintos e as pontes projetando o olhar doce como só os anjos tem, um anjo chamado Tadzio.



título original: (Morte a Venezia)
lançamento: 1971 (Itália)
direção: Luchino Visconti
atores: Dirk Bogarde , Mark Burns , Marisa Berenson , Carole André , Björn Andrésen
gênero: Drama


Ivy Gomide

domingo, 21 de março de 2010

ROMA, SÉCULOS E SÉCULOS VESTEM UMA HISTÓRIA



ROMA, SÉCULOS E SÉCULOS VESTEM UMA HISTÓRIA.


Naquela noite saí da estação apreensiva, afinal ouvira muitas histórias relacionadas aos possíveis perigos da Stazione di Termini. O silêncio das ruas quase vazias possibilitaram mil fantasias, era a primeira vez que eu colocava meus pés na cittá eterna; projetada em versos, filmes e sonhos, criados por mim, Fellini, Marcello(o Mastroianni) e Visconti.
A vontade que tinha era de gritar: Estou em Roma. Estou em Roma!
O temor contudo funcionou como freio. O dia cansativo entre vôo e trens, tentando me localizar deixaram-me esgotada e desisti de meu primeiro projeto, ir na mesma noite à “Fontana dos prazeres”.
Dia seguinte acordei sedenta, mesmo com o tempo entre chuvoso e frio fui conhecer a cidade que povoou meus pensamentos desde a adolescência.
A princípio Roma pareceu-me confusa, muita gente transitando e eu a queria somente para mim.....Queria encontrar-me tetê -a -tete com seus símbolos. O Coliseo, a Fontana di Trevi, a piazza Navona, a via Del Corso, o Foro Romano, a piazza de Spagna, a via Veneto, estar nos restos do que fora um império, rodar pelas ruas de um passado que naquele instante enfim vestia o meu presente. Para isto pretendia pegar um daqueles ônibus turísticos da piazza dei cinquecento e ir me familiarizando. Procurei na cabeça a frase decorada do meu curso de italiano feito “via internet”..... ‘scusa, per favore come faccio a prendere l’autobus che anda per La cittá?’ Já estava guardando na língua a outra frase, rs....‘non capire niente!’ Nesta hora felizmente eu vi na praça próxima a termini muitos ônibus que sem dúvida alguma eram turísticos.
Escolhi um vermelho com um andar acima aberto, mas....chovia..........
Desisti daquelas ‘coisas’ para se colocar nos ouvidos porque eu estava totalmente dividida entre ver e ouvir. Optei por ver. Confesso que perdi-me pelas ruas, o visual era de infinitas opções. Juro que queria saber o que meu olhar consumia, mas o bla bla bla era tão grande e somado àquela voz empostada, cansava-me. Eu apenas olhava tentando decidir onde saltar.
Optei pelo Coliseo, gosto do nome Coliseo em lugar de Coliseu ou de Coliseum..rs é uma questão totalmente auditiva. Não achei as travessias caóticas como diziam, na verdade achei os italianos tão gentis... eles paravam os carros para que eu atravessasse; será verdade? Muito bem, cheguei ao set, seria aquele monumento real? Enorme, guardava em si um mistério indecifrável e eu apaixonada por mistérios, subi por um..(acreditem)...elevador e ri muito!
Um elevador em pleno império romano! Confesso que apesar de inapropriado eu gostei...rs
Fui ao topo e retornei a um passado conhecido: Os livros, a história e o filme – O Gladiador.
O sol retornou quando estava diante das ruínas do Coliseo. É lindo! Que fortaleza. Quanta história, quanto sofrimento, e principalmente a frase que não me saía da cabeça em todos os momentos que estive em Roma. Quanto poder!
Andei muito, o segredo é andar. Fui ao Palatino e literalmente me apaixonei. Como aquele povo tem em suas veias um passado de séculos e séculos? Esta coisa chamada século é de uma intensidade absurda. O Palatino é uma cidade ( século VIII a.C.), dentro de outra cidade. Ele parece ilimitado, ali sentimos mais uma vez o poder. Roma é uma cidade poderosa.
Amei as escadarias e as pedras que sobre outras pedras significam tempo, seja passado ou presente. Pra mim foi tudo um presente (decodificando verbos). Confesso que vi tantas coisas naqueles dias em Roma que até hoje me perco. Delirei com a Fontana, sim ela fica numa pracinha e chama-se “di Trevi” porque na idade média três ruas se cruzavam ao lado da piazza Crociferi. É um trevo! Em Roma tem sempre gente demais, mas garanto que me senti em um passado que não vivi e cheguei a ver com meus olhos a cena imperdível de Marcello e Anita na Fontana da ‘Doce Vida’. Linda e aconchegante Fontana onde me permiti a parar e comprar um vinho para depois bebê-lo admirando a paisagem relaxante das águas escorrendo dentro de meus pensamentos.
Admito que não usufruí tudo que a cidade oferece, mas joguei minha moedinha de costas para a fonte acreditando piamente que retornarei. Roma merece uma viagem sem pressa para que se possa sentir de perto todas as tramas, guerras e domínios pelos quais a cidade passou.
Roma, mi piace molto!





Ivy Gomide



*

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Faz quase um mês que retornei da Europa, apesar de minha idade esta foi a primeira vez que estive no "velho mundo". Fui possuída por ele e preciso de algum jeito voltar. Não sei quando.... Por enquanto deixo aqui algumas impressões, sentidos e os cheiros que senti como cão. Na verdade eu sou um cão nesta vida, porque penso que só somos felizes quando realizamos nossa busca pelos prazeres. O meu é viver sonhos.

Vou deixando as marcas por onde passei...............

SILÊNCIOS QUE INVADEM......




SILENCIOS QUE INVADEM A CIDADE PERTURBAM OS BARULHOS QUE MORAM EM MIM

Ivy Gomide





Altiva, solene, extremamente inteira, aquela senhora com nome de santo, deixou-me perplexa. Queria abraçar aquele santo ( San Geminiano ), logo eu que nunca escondi meu desinteresse por religiões. Contudo a cidade surgida atrás dos muros, não cabia em meus braços.
Sinto saudades de seus silêncios e de seu jeito tão medieval.
Como quem vai a missa, vestia-se austera com leve e acolhedor sorriso. A roupagem impecável, contrastava com a minha; vinda de boa parte da viagem eu apresentava um jeito meio mochileiro de ser apesar da idade. Havia andado boa parte da manhã, quando comecei a me arrastar pelas ruas de San Geminano. Nos primeiros passos tomei fôlego porque a visão que se apresentava era indescritível. Jamais imaginei que iria encontrar algo tão sensual, perfeito, limpo e inteiro; afinal havia retornado à pouco das maravilhosas ruínas Romanas.
O primeiro impacto se deu ao me confrontar com o silêncio e as ruas vazias ( a Europa está sempre cheia). Pensei: - “Será um cartão postal?”
- “Esta cidade tem moradores?” - Para meu espanto fui descobrindo que haviam moradores sim, e até me confrontei com um enterro, coisa que não combinava com uma cidade tão viva e tão jovem na sua velhice.
Os muros muito altos, as janelas aparentemente fechadas, aquele silencio impenetrável que imperava os caminhos, fizeram-me entrar num mundo onde eu me sentia pecadora, pois que espiava por todas as portas. Fui literalmente tomada, possuída mesmo. Eu e San Geminiano entramos em cópula. Queria ficar sozinha com “ele”, queria dialogar com aquele santo que me comoveu, porém alguns barulhos de passos atrás dos meus interrompiam. Assim resolvi que deveria viver a realidade e me instalei, fiz parte e vivi.
Imaginei uns mil anos atrás, e perdi muitos ângulos porque esqueci da máquina fotográfica, entretanto eu registrei tudo com meu olhar.
San Geminiano, é única, apesar de dizerem que existem outras cidades no estilo, falo de meus sentidos e afirmo: É única! Gostaria de ter passado uma noite com aquele santo usufruindo seu silêncio, hoje tão raro.
A paisagem agora mora na minha cabeça, nos meus sentidos e no meu amor. Digo sem nenhum pudor que eu te amo meu santo. Eu te amo nas confissões que pude realizar, nos pecados que cometi e na paisagem inconfundível que partilhamos.
Afirmo meu santo que serei tua por toda vida, porque a paixão que de mim se apossou não tem tempo ou hora, é eterna como tua alma.



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